Habemus Pappam Habemus Pappam Habemus Pappam

A mesma fumacinha branca que trazia alegria também trazia curiosidade e temor. Quem seria o novo Papa? Em questão de uma hora, a alegria, a curiosidade e o temor plantaram, para o mundo todo, uma grande interrogação. Como será o novo Papa, já então conhecido e anunciado como Bento XVI?

Primeiro, foi a estranheza do nome para quem estava acostumado com João Paulo II. Por que Bento? Por ter o Cardeal Ratzinger simplesmente nascido no dia 16 de abril, dia do singular santo peregrinante, o “andarilho de Deus”, São José Bento de Labre? Ou teria ele se inspirado no grande São Bento, padroeiro da Europa e grande benemérito, com seus monges, da cultura ocidental? Ou, ainda, teria vindo a inspiração do predecessor com o mesmo nome, Bento XV, que foi um papa pacificador dentro e fora da Igreja?

A verdade foi que o novo Papa apareceu, entre tímido e muito comedido, com gestos meio desajeitados, pouco exuberantes, no balcão da Basílica, acenando para a multidão surpresa e, ao mesmo tempo, comportada e ovacionante da Praça de São Pedro. Falou pouco, mesmo sendo um apreciado professor, e deu a bênção “urbi et orbi”, ao mundo e à cidade.

O passado mais distante do novo Papa o credencia para os grandes sonhos de transformação e afirmação da Igreja no começo do terceiro milênio. Brilhante teólogo, foi um dos grandes peritos do Concílio Vaticano II, entre 1962-1965. Professor de muitos livros, antes de ser Bispo e Cardeal, foi um dos forjadores de quase duas gerações de estudantes de Teologia. Pode-se dizer que moldou, junto com Karl Rahner, Congar, Chenu, Urs von Balthasar e muitos outros, o pensamento teológico na última metade do século XX. De seu brilho intelectual, ninguém podia ou pode duvidar.

Seu passado mais recente, no entanto, é mais interrogante. Desde 1981, presidiu o Secretariado em defesa da fé e da doutrina católicas. No Brasil e na América Latina, sua mão pesada se fez sentir com dois documentos que garrotearam a Teologia da Libertação. Embora o segundo documento, de 1986, asseverasse que tal teologia não era somente útil, mas até necessária, porque o Evangelho é libertador, as desconfianças levantadas e as sanções aplicadas a bons teólogos tiraram o vigor das Comunidades Eclesiais de Base, abrindo o flanco da Igreja para o surgimento e fortalecimento de seitas pentecostais.

Em suas primeiras duas semanas como Papa, seu discurso abrandou-se consideravelmente. Prometeu dar continuidade aos documentos do Concílio, a ser um Papa do diálogo, aberto ao ecumenismo, embora manifestando antigas e justas apreensões sobre o que qualifica de “relativismo ético e moral” da nossa época. Como observaram pessoas versadas em diplomacia: “Uma coisa é ser estilingue; outra é ser vidraça”.

Para o povo, mais distante das diatribes da Teologia, importante foi saber que a Igreja tinha um novo Papa. E isso causou alegria. A vida da fé e das comunidades há de continuar com Bento XVI. Um Papa, na verdade, sempre pode muito, embora não possa tudo. A vida é a força maior e os caminhos que passam por Roma podem ser de bênção e alegria, ou de tristeza e orfandade. O mundo atual e nossa Igreja desejam um Papa que seja pai de todos e ofereça suas luzes como graça de Deus no seguimento alegre e convicto de Jesus. Na verdade, o mundo precisa, hoje, mais de testemunho do que de discursos, mais de oração do que de doutrinas.

De nosso cantinho, estamos, na esperança e na torcida, com o novo Papa, pedindo a Deus que ele seja uma bênção para o mundo e para a Igreja, para que possamos dizer com alegria: Habemus Papam , um papa que é “o servo dos servos de Jesus Cristo”.

Frei Neylor J. Tonin, irmão menor e pecador

 

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