Frei Neylor Jose Tonin -  Psicologia e Espiritualidade
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9. Oração do amor perdido


Porque és a fonte do amor e consolador dos aflitos,
te invoco, meu Deus e senhor, e me ajoelho diante de ti.

Meu coração está ferido e meus olhos, cheios de lágrimas.
A dor sufoca meu peito e minha língua só sente amargor.

E te pergunto, rezando e pedindo e quase revoltada: por quê?
Por que foi acontecer isto comigo? Por que fui abandonada?
Não era uma boa esposa, uma mãe dedicada e cheia de ternura?
Não renunciei a mil coisas e sempre só desejei a felicidade dos meus?

Sim, como é volúvel o coração humano e fugazes, nossos sonhos!
Cultivei com mãos de fada o jardim de nossa vida
e só colhi tristezas e espinhos, dores e decepções.
Hoje me sinto sozinha, frustrada e com um sentimento de vazio.
Perdi o que era meu, um grande amor, e já não sou mais de ninguém.
Sozinha, busco me entender e até a perdoar, mas não consigo.
Se nada fiz de errado, se só e sempre me dei sem medidas para todos,
por que, meu Deus, responde-me, por que meu casamento fracassou?

Não é só comigo, eu sei. Milhares de casamentos se desfazem,
lágrimas rolam por toda parte, há milhões de corações despedaçados.
Mas a desgraça alheia não me serve de consolo, apenas a lamento.
Volto-me sobre mim mesma para entender o desfecho de meu drama.

Por quê? Por que tenho que carregar esta cruz tão dolorosa?
Preferiria perder tudo, menos o amor que era tudo que eu tinha.
Tu nos abençoaste e juramos nos amar na alegria e na tristeza,
na saúde e na doença, por todos os dias de nossas vidas, até ao fim.
Nossa lua-de-mel foi de sonhos, nem parecia que ser de verdade.
Fomos aos poucos construindo nossa vida e enchendo nossa casa,
colocando amor nos quatro cantos e flores sobre a mesa.
A felicidade parecia morar em nosso lar e éramos tão felizes!
Vieram os filhos e nosso casamento ficou ainda mais bonito.
Nossa casa tinha música: a música do chorinho das crianças.
Nossa casa era um paraíso: com a festa de seus trejeitos e gracinhas.

Agora, mergulhada nas trevas, tudo isto me parece ter sido uma farsa.
Será o amor uma mentira, uma ilusão, uma dolorosa frustração?
Pode alguém ser, ao mesmo tempo, verdadeiro e mentiroso,
cheio de afeto e traidor, amoroso e insensível, e até assassino?

Sinto-me morrer por dentro. Meu coração foi apunhalado.
Diz-me, meu Deus e Senhor, que devo dizer, que devo rezar?
Faz de mim uma oração, a tua oração, que a minha é só pranto.

Te ofereço a história de um belo amor e a dor de seu triste fim.
Te ofereço os mil porquês que não me dão resposta alguma.
Te ofereço meus filhos, ainda inocentes para entender o que se passa.
Te ofereço os dias ensolarados e as nuvens, agora, carregadas.
Te ofereço a mulher amada que já fui e a droga que me sinto.
E peço tua ajuda, porque confio em teu poder e no dia de amanhã.
Com tua graça, sei que levantarei a cabeça e darei a volta por cima.
Com estes braços ainda abraçarei o milagre da vida que continua lindo.
Desta garganta, ainda sairá uma música que mágoa alguma abafará.
Estes meus olhos ainda conhecerão as lágrimas da alegria
e meus filhos dirão, uma dia, que tiveram uma grande mãe,
que nem os infortúnios do amor nem os porquês sem resposta da vida
conseguiram derrotar ou abater.

Se era esta a oração que querias, meu Deus e Senhor,
é esta oração do amor perdido que te ofereço.
Em louvor de Cristo, meu salvador.
Amém.

Editora Vozes
 
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