Ó Senhor, que tão
bem conheces o coração humano, bem sabes o quanto
tememos a morte e o quanto vivemos apegados à vida.
Sabes também que, na melhor das hipóteses, até
fazemos do cemitério um lugar de piedade..., quando
se trata da morte dos outros,mas, ao mesmo tempo, de horror...,
quando se trata da nossa. Temos consciência de que ele
é o nosso destino, mas tudo fazemos para dele esquecer
o endereço.
Numa sexta-feira, quando mal completavas
33 anos e apenas vias repontar as primeiras sementes do Reino,
a morte tragicamente interrompeu tua vida. Entre dois ladrões,
traído e negado por teus discípulos, abandonado
por teu Pai do céu e apenas acompanhado por tua mãe
e umas poucas mulheres, morreste sem graça e sem apelação.
Teu grito de desespero
"Meu Deus, meu Deus, por que me
abandonaste?"
ficou pendurado no vazio e teu fim foi apenas iluminado
por um doloroso ato de fé:
"Em tuas mãos, ó Pai,
entrego-te meu espírito! Tudo está consumado!"
Agora, sentados à beira de teu túmulo, entre
surpresos, estupefatos e cheios de perguntas, ainda nos sentimos
mergulhados na incompreensão dos fatos.
Se eras o Deus vivo, por que tinhas que morrer?
Se tinhas que morrer, por que tiveste que sofrer tanto?
Se eras o enviado de Deus e adorado pelos anjos, por que
foste abandonado pelo céu e amaldiçoado pela
terra?
A humanidade permanece muda diante dos desígnios de
Deus.
Por que fazer sofrer e morrer o próprio Filho?
Por que fazê-lo gritar de dor, destruindo-o, se Ele
era a fonte da vida?
Por que levá-lo ao desespero, se Ele fora dado ao
mundo como esperança?
Por que reduzi-lo ao silêncio, se Ele fora anunciado
como o Verbo de Deus?
Que respondam o céu, as nuvens e os abismos mais
profundos da terra:
Se Jesus tinha uma mensagem de vida e salvação
para a humanidade, por que tinha Ele que morrer crucificado,
como um celerado?
Por quê? Por quê? E por quê?,perguntamos
três vezes, sem encontrar respostas.
Hoje, sentados à beira de seu túmulo vazio,
continuamos nos perguntando:
Por quê? Por quê? Por quê?
Meus queridos irmãos e irmãs: A Paz esteja
com vocês!
Como criatura, filho de Maria e da graça de Deus,
também me perguntei muitas vezes, em vida, por quê.
Sabia que meu Pai tinha misteriosos desígnios e queria
que fosse rasgado, na cruz, o documento que tinha sido escrito
contra os homens, meus irmãos. Foi por isto, só
por isto, que aceitei, mesmo desesperado, fazer sua vontade
e não desci da cruz.
Hoje, confesso-lhes, valeu a pena.
De agora em diante, a fronte de cada irmão, homem
ou mulher, ostenta um selo salvador de preço inestimável
e eterno. Minha cruz passará para a história
como instrumento da salvação de Deus. Quem olhar
para ela e invocar meu santo nome será salvo. Quem
a desprezar estará, infelizmente, condenado.
A paz eu a trouxe, a paz eu a conquistei. Meu túmulo,
agora, está vazio porque a poderosa mão de Deus
me ressuscitou. Ele me glorificou e exaltou diante dos anjos
e dos homens e, hoje, estou assentado, à sua direita,
num trono de glória. Dois anjos, com vestes brancas
e espadas flamejantes, atestam que hoje é o dia do
Senhor, o santo dia da Páscoa.
Proclamem a meus irmãos e a todo o mundo que ressuscitei
e que eles podem fazer a festa da vida e cantar a misericórdia
de Deus. O demônio se encontra definitivamente amarrado
e já não poderá mais fazer mal a ninguém.
Esta é a vitória da cruz. Esta é a vitória
do amor de Deus. Meu sepulcro está vazio.
A morte deixou de ser um espantalho e todos os cemitérios
do mundo são apenas a porta de entrada para a nova
vida e um jardim onde começa uma eterna e feliz páscoa.
Querido Jesus, nosso bom Deus e senhor, nós te louvamos
e cremos em tuas palavras, confessamos teu poder e agradecemos
a Deus por teu amor. Graças a teu sepulcro vazio, já
não temos mais medo da morte e cantamos, jubilosos,
aleluias de ressurreição.
As incertezas de nossas dúvidas foram invadidas pela
luz do dia, nossos pés dançam de gozo e felicidade
e, com alegria e sempre iluminados pela fé, uabrimos,
felizes, nossos braços para a amplidão do céu.
Tu és o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!
Tu és o caminho, a verdade e a vida santa e plena!
Tu és a paz que buscamos e o canto que nunca deixaremos
de cantar!
Tu és o rei dos reis, o senhor dos senhores, a glória
do Pai, o pão dos anjos, a recompensa dos justos e
a festa da vida.
E nós somos e seremos teus seguidores, arautos cativos
de tua vitória sobre a morte, cantores de teu sepulcro
vazio.
E te prometemos, diante de teu corpo glorioso, que sempre
lutaremos contra todo tipo de morte, contra a fome, a miséria
e a exploração de qualquer irmão, para
que ninguém nunca sinta vergonha por não ter
pão e trabalho, nem tristeza por falta de companhia
e compreensão.
Lutaremos para que a vida seja, para todos, vida e não
morte. Em nome da justiça, lutaremos contra perseguições
injustas, para que ninguém seja cruelmente trocado
por Barrabás ou coroado de espinhos e vilipendiado
em sua dignidade.
Assim foi a tua história: Passaste pela vida fazendo
o bem e pregando o Reino. Se teu sepulcro está vazio
é porque te comprometeste com a festa da vida e queres
encher de esperança o desespero da morte. Como os apóstolos,
não deixaremos de anunciar, ao mundo, que ressuscitaste
verdadeiramente.
E porque estás vivo, também nós serviremos
ao milagre da vida, honrando tua vitória sobre a morte
na vida e morte dos nossos irmãos.
Obrigado, ó Cristo ressuscitado, nosso Deus e senhor!
Em nossa pobreza, mas cheios de confiança e alegria,
a ti oferecemos o que somos e temos, nossa vida e a tão
temível morte, a vida que ainda temos e o sepulcro
que nos espera.
Quando a pedra tumular for colocada, definitivamente, sobre
a campa de nossa última morada, encerrando nossa peregrinação
e selando nossa sorte temporal, que tua palavra criadora nos
acorde com tuas divinas promessas e que teus braços
nos apertem, fortemente, num grande abraço, de glória,
de festa, de felicidade, de páscoa eterna.
Amém.
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