Grande e bom Deus, nós te confessamos como criador da vida.
Tudo - acreditamos - saiu de tuas mãos e todos te pertencem.
Nada existe que não tenha a marca de tua voz
e a pessoa humana tem, até, a batida santa de teu coração.
Queremos, por isto, agradecer-te por todo o universo.
Muito obrigado pela existência do sol e da lua,
das estrelas mais luzidias e dos vermes mais insignificantes.
Obrigado pelos seres inanimados:
as pedras, as águas, as plantas, as estrelas.
Obrigado pelos animados:
os anjos, os humanos, os animais, os demônios.
Deveríamos também agradecer-te pelos desanimados?
Quanta gente deprimida, entristecida, sem-graça, crucificada!
Quantos irmãos nossos que já não levantam os olhos
para o céu!
Quantos estão pedindo a morte e morrendo aos poucos, a conta-gotas,
como se tu não fosses o criador e senhor de suas vidas!
Querido Deus, amamos a vida e te reconhecemos como seu criador,
mas não dá, simplesmente, para aceitar a vida como ela
é.
Não te revoltas com os dramas que esconde,
com as tragédias que a maltratam,
com as tristezas sem solução que apresenta
e com os fermentos de morte que a tornam
pouco-divina e quase diabólica?
Como pode ser assim, tão sem graça,
algo que saiu de tuas mãos tão cheias de graças?
Se és o "grande amigo da vida",
como pode a vida ser tão contra a vida?
Meus filhos e filhas, tenho pela vida a maior paixão.
O escritor do livro da Sabedoria, inspirado por mim,
afirmou que nada detesto daquilo que criei, um dia,
que tudo subsiste porque eu o quero
e que, por isto, não condeno nem mesmo o pecador,
porque sempre o perdoarei com meu amor onipotente (11,22-26).
Isto não são apenas palavras, mas uma verdade divina e
imortal.
Não importa como se apresenta,
não importa como é tratada,
a vida, para mim, será sempre uma bênção
e um milagre
e, a cada manhã, eu a cubro com minha graça.
Antes que o galo cante, antes que o sol se levante,
já estou de pé para protegê-la e defendê-la,
divinamente.
Na verdade, nem todos pensam e agem como eu.
Há os que se pensam ser um falso deus e a exploram,
entristecendo meus filhos e adulterando seu mistério.
Lamento muito. Este é o maior de todos os pecados,
o pecado de fazer do milagre da vida uma desgraça do inferno.
Eu mesmo me pergunto:
Por que os homens fazem da vida uma tristeza,
se eu a criei para ser alegria e felicidade?
Por que a vida não é uma festa para todos os meus filhos
se ela foi criada à imagem da festa que existe no céu,
se ela ainda guarda as saudades do paraíso inicial?
Querido e bom Deus,
as tuas perguntas são as nossas dúvidas e revoltas.
O mistério do mal nos machuca e impacienta.
Não sabemos o que fazer diante do agressor senão condená-lo.
Nossa tentação é responder com violência
aos violentos.
Pessoas mais radicais gostariam, como solução, até
de eliminá-los.
Eliminando um Hitler
não teríamos evitado a II Guerra Mundial?
Eliminando um Sadam Hussein
não teríamos nos livrado da Guerra do Golfo?
Eliminando ditadores
não teriam os povos preservado suas democracias?
Para onde caminha a humanidade
quando respeita os direitos pessoais de seus governantes
que não respeitam os direitos humanos das comunidades?
A grande dúvida que nos assola o espírito é esta:
por que o mal é tão forte e onipresente,
por que teu inimigo, o demônio, é tão senhor deste
milagre, que é a vida,
e porque tu, ó Deus criador, ficas tão passivo diante
de tanta maldade?
Às vezes, sentimos vontade de ser deus para acabar com o mal
e defender a vida contra seus agressores.
Não valeria a pena sacrificar uns poucos em favor da imensa maioria?
Enfim, quem deve ser preservado: os que amam e servem a vida
ou os que a agridem e zombam de tua ausência e aparente omissão?
Meus queridos filhos e filhas: criei a vida com amor
e só no amor ela é divina e parecida comigo.
Vejo, com tristeza, como o diabo
semeia o joio da violência e do ódio.
Mas não posso, sem negar minha natureza de amor,
avalizar os rompantes de violência que os bons,
às vezes, apresentam.
Além de ter dado às pessoas a graça do tempo para
converter-se,
ainda criei meus filhos e filhas com a bênção da
liberdade.
Muitos não sabem como usá-la e se tornam prepotentes.
Outros se omitem, passivamente, e só sabem lamentar-se.
Apressar a condenação de uns e outros
seria negar minha criação,
mostrando-me impaciente diante de omissões e desvarios.
Não me seria difícil mandar sobre todos um raio de minha
cólera.
Mas, onde ficaria, então, o Deus da graça e do perdão,
o senhor do tempo e o redentor de todos os males e injustiças?
Quero lembrar-lhes que não só lamento as violências
e o ódio,
mas que ainda, em Jesus, me sujeitei aos descalabros do mal.
Não mandei uma legião de anjos, como podia, para livrá-lo
e permiti que a humanidade perpetrasse tão grande crime
para testemunhar que sou um Deus paciente e bondoso,
sempre rico em misericórdia e pronto para o perdão.
Meu coração não ficou insensível diante
de seus sofrimentos,
mas meu braço ficou recolhido para não ferir o amor e
a liberdade.
E vocês, meus filhos e filhas, têm como missão e
evangelho
refazer os caminhos do bem e da cidadania, da paz e da justiça.
Em suas mãos, eu confio e coloco o destino da sociedade,
para que a vida continue a ser um milagre de festa e fraternidade,
um espaço divino de respeito aos direitos humanos fundamentais.
Lutem! Não se encolham! Não aceitem passivamente o mal
nem façam da impaciência uma evasiva
contra a violência e contra os maus!
Não intervenho no milagre da vida porque este milagre são
vocês.
Amo este milagre e tenho paixão por ele.
E ele só florescerá quando se fizer forte e ativo,
e quando vocês, olhando para mim,
viverem com respeito e amor, amando e defendendo a liberdade.
Se pudesse lhes dizer uma última palavra, esta seria:
Abençoem a vida, toda vida, mesmo a dos maus e dos tiranos.
Aceitem que meu sol nasça todos os dias sobre todas as criaturas
e que minha chuva fecunde todos os campos igualmente.
No fim dos tempos, todos serão julgados.
Os bons receberão a recompensa
por terem amado o milagre da vida.
Os maus serão condenados
por terem pecado contra minha criação.
Querido e bom Deus,
Senhor da vida e nosso amantíssimo Salvador:
mesmo impacientemente, te oferecemos,
na adoração, as alegrias e as dores,
os sofrimentos e as cruzes, o bem e o mal que vemos na vida.
Reconhecemos o quanto somos pequenos e o quanto és grande.
És grande e bom, paciente e misericordioso, cheio de graça
e perdão!
Agradecidamente, aceitamos a beleza e a tragédia de viver.
E te prometemos que lutaremos contra os tiranos e malfeitores,
defendendo a bênção da vida e todas as tuas criaturas.
Te louvamos pelos homens e mulheres que promovem a vida,
médicos e enfermeiros que tentam salvá-la,
advogados e juízes que não a deixam sofrer injustiças,
professores e professoras que a educam,
padres e pastores que a tornam mais cheia de graça,
pais e mães que a geram e cuidam de seus filhos
e por todos que a enaltecem, engrandecem
e a fazem mais humana e divina.
Ao mesmo tempo, te pedimos, perdoa-nos quando a desrespeitamos.
Acende em nosso coração a mesma paixão que tens
por ela.
E te prometemos que sempre reverenciaremos
toda e qualquer criatura, pobre ou rica, simples ou doente,
honrando assim teu santo nome,
servindo e amando o grande milagre que saiu de tuas mãos
e que chegou à sua plenitude na pessoa santíssima de Jesus,
que foi verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. Amém.
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