Levantando a voz 7
Frei Neylor J. Tonin
Do risco do desprezo
Estamos correndo um grande risco, nós e o mundo inteiro: é
o risco do desprezo. Ninguém suporta ser desprezado por muito tempo e
gravemente. Vamos lembrar alguns fatos: Na Europa, o desprezo pelas periferias,
que na França se chamam de banlieus, ou seja, lugares abandonados, já incendiou
várias cidades, iluminou como se fosse dias as noites de várias cidades; Paris,
que se orgulha de ser a Cidade-Luz, transformou-se numa cidade das trevas,
violenta e revoltada. Na Alemanha, o desprezo mal suportado, também ateou fogo
e tirou a paz dos cidadãos de várias cidades. Na verdade, uma população não
pode ser desprezada por sua etnia, por sua pobreza ou por sua religião. Ninguém
é menor por ser turco, argelino, muçulmano ou por possuir menos status social.
Na Espanha, jogadores de futebol são desprezados, não por jogarem mal, mas por
serem simplesmente negros. O mesmo acontece entre nós, em campos de futebol, no
Brasil. Parte da torcida do Botafogo, referindo-se, por exemplo, ao Flamengo
que não faz, neste campeonato, infelizmente, uma campanha digna de suas
tradições, gritava perigosamente: “Ela! Ela! Ela! Silêncio na favela!” Articulistas
de futebol, emocionalmente pouco equilibrados e desconhecendo as conseqüências
de suas análises, mais torcedores do que críticos, costumam se referir aos
adversários com referências ofensivas e incendiárias. Aí, acontece a tragédia.
Uma torcida ofende, despreza, mal convive com a outra. Depois do jogo, as
torcidas se encontram e o desprezo e as ofensas se confrontam com tiros, pedras
e foices. Do desprezo à morte, não vai mais do que um passo. Estamos correndo
um grande risco, como dissemos acima: o rico do desprezo. Uma coisa é torcer,
exaltar o próprio time e uma vitória, dando vazão à paixão do futebol. Outra,
bem outra, é o desprezo ofensivo, a provocação cruel, a animosidade animal que
se vota ao outro, que deixa de ser, como todos somos, apenas torcedores, para
desqualificá-lo e ofendê-lo gravemente e insuportavelmente. No Brasil e no
mundo, ninguém é menos por ser torcedor deste ou daquele time; ninguém é menos
digno, como pessoa, por ser turco, argelino, emigrante, muçulmano ou pobre. No
fundo, ninguém aceita ser desprezado. Quando o desprezo se torna cruel e
insuportável, a tragédia está pronta para acontecer. Parece que o ser humano
não aprende o que é uma verdade de todas as grandes religiões do mundo: somos
todos iguais, somos imagens de Deus, ninguém é melhor do que ninguém. Gostaria,
aqui, de alertar as próprias religiões e seitas para o respeito que devem seus
seguidores alimentar em relação aos que têm uma outra fé. Sinto que é muito
fácil condenar os que não crêem como nós cremos. Há seitas – e, aqui, citaria,
com pesar, a Universal do Reino de Deus e as várias Assembléias de Deus! – se
comprazem em falar mal de outros segmentos religiosos, como a Igreja Católica,
o Espiritismo e a Macumba. Penso que estão indo por um caminho errado e
perigoso. Mais dia, menos dia, tal desprezo lhes trará frutos amargos. Digo
isto, até com um pedido de perdão pelo que minha Igreja já fez no passado em
relação aos protestantes. Não se honra a Deus, desprezando qualquer ser humano
e irmão, não importa a forma de reverenciar a Deus que tenha. Quando se plantam
ventos – como diz a sabedoria popular – colhem-se tempestades. É hora de parar
com o desprezo. O desprezo é um risco incendiário e mortal, na religião, no
futebol e na vida social. Os ricos precisam aprender e admitir que os pobres são
tão dignos quanto eles. Os parisienses abastados devem aprender e admitir que
os pobres banlieus não são menos filhos de Deus do que eles. Os flamenguistas e
botafoguenses, os vascaínos e os pós-de-arroz devem saber que a paixão por seus
times não lhes dá o direito de desprezarem os outros torcedores. Se não
aprenderem esta simples verdade e lição, o risco do desprezo poder-lhes-á ser
cruel e fonte de lágrimas e morte. Contra o desprezo, levanto a voz. Tenhamos
juízo e não marquemos um gol – um trágico gol – contra a nossa própria
humanidade.
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