Levantando a voz 13
Frei Neylor J. Tonin
A Utopia do Natal
Lembra-te, ó Homem, de que não foste criado para ser Deus
ou demônio, mas simplesmente gente e irmão. Nasceste no seio da grande família
humana e irmão é o grande título que, então, recebeste. Abaixa por isto a
crista e levanta a cabeça. Não tenhas medo, nem sejas presunçoso. Não és
inferior aos outros, nem superior. És gente! És, simples e lindamente, gente e
irmão!
Bem sabes que nem todos pensam assim nem aceitam esta
realidade. Há os que vivem como se isto não fosse verdade. Alguns, por terem
mais talentos, riquezas e um pretenso “sangue azul”, julgam-se melhores e, até,
predestinados. Na verdade, são de barro como tu e eu. Nascem frágeis, nus,
pequenos, dependentes e imperfeitos. Choram para mamar e mamam por amor e favor
de suas mães. Terão muito que crescer “em idade, graça e sabedoria diante de
Deus e dos homens” (Lc 2,40).
Pensa bem. Quantos anos passaste em bancos de escola e
quanto tiveste que aprender, sabendo, hoje, ainda tão pouco! Em qualquer
assunto, não és um doutor completo. Sempre terás muito por aprender e haverá
muitos que sabem muito mais do que tu. As ciências avançam e tu ainda patinas
no aprendizado como em teus tempos de escola.
Não é preciso dar exemplos para evidências solares e
incontestes, mas, por amor ao diálogo, considera! O melhor padeiro sempre
encontrará um colega de profissão que faz algum pão diferente e melhor do que o
seu. O mais aplaudido orador nem sempre consegue expressar e comunicar perfeitamente
seus argumentos. Um bom educador, mesmo que sábio, reconhece, sem desdouro para
sua arte e devotamento, que não toca, como gostaria, o coração de seus
formandos. Suas palavras e doutrinas podem ser admiráveis, mas suas lições
estão longe de serem absorvidas e seguidas por todos.
E, assim, por diante. O tempo, que molda nossa beleza
física, também nos cobre de rugas e de cabelos brancos, tirando-nos a beleza da
pele e cobrando-nos a beleza interior da alma.
Não importa o que somos e como parecemos. O que não
podemos é revoltar-nos e baixar a cabeça. Fomos feitos com a dignidade do amor,
para sermos dignos no amor, como irmãos. Podemos ter pés de barro, mas temos um
coração de ouro. Nossas raízes afundam-se no lodo que pisamos, mas nossas asas apontam
para o alto, em direção ao sol.
E mais realizaremos o destino de nossa existência,
sempre pobre e, finalmente, passageira, quanto mais vivemos para fora de nós
mesmos, de coração aberto, em direção aos outros. Para dentro de nós mesmos,
somos filhos de Deus. Para fora, somos irmãos, simplesmente irmãos.
Só a graça de Deus nos faz diferentes. A cada um, ela dará
segundo a generosidade de seus desígnios. Ele, somente Ele, é senhor da vida e
da morte. Nós somos apenas destinatários de uma história e companheiros de
caminhada. Sozinho, ninguém construirá algo eterno e será um vencedor. Juntos,
formamos um só corpo de vida e de sonhos, de graça e de pecado. O dia de hoje é
a quota que nos é dada para a definição de nossas vidas, podendo o ser humano
viver para o abraço da fraternidade ou para a maldição da rejeição e do
desencanto.
Segundo a teologia bíblica, Deus amou tanto a vida que fez
para ela um paraíso. Nossos primeiros pais, infelizmente, assim não entenderam.
Armaram-se de orgulho e pretenderam ser independentes e senhores do bem e do
mal. O que se seguiu todos nós o conhecemos. Hoje, estamos neste mundo com
saudades do paraíso perdido.
Perdido o paraíso, Deus, no entanto, concedeu à
humanidade uma segunda chance para ser feliz. Esta chance se chama irmão.
Perdemos, no paraíso, a intimidade com Deus, mas Deus não quis perder a
intimidade com suas criaturas e nos presenteou com a proximidade do irmão. O
irmão é o novo céu que Deus concebeu e nos deu após o pecado original ou... o
nosso inferno.
Deus, sendo criador, quis fazer-se igualmente irmão.
Encarnou-se em Jesus para assumir nosso modo de ser e ensinar-nos o caminho do
paraíso perdido. Esta é a utopia do Natal. Deus armou sua tenda entre nós,
cresceu como gente, amando-nos com um coração humano, se amar-nos como Deus lhe
parecia pouco. Deste novo paraíso, ninguém está, de antemão, excluído. Pelo
contrário, para ele, todos estão igualmente convidados.
Quando olhamos para os outros, encontramos neles o Deus a
quem não vemos. Encontramos e somos desafiados. Em Jesus, tornou-se visível o
rosto invisível de Deus, que se fez carne de nossa carne, osso dos nossos
ossos. No coração da pessoa, lateja, como no nosso, o mesmo sonho de felicidade
que Adão e Eva experimentaram quando viveram na intimidade com Deus. Este novo
paraíso é possível, proclama a festa do Natal. Ele pode realizar-se na pobreza
de uma estrebaria, desde que as pessoas vivam com amor e tenham uma estrela
divina a iluminar-lhes a simplicidade do presépio.
Em Belém, dois mistérios se abraçaram: a grandeza de
Deus, que se fez gente, e a beleza de ser gente, que sonha em ser Deus.
Ali compareceram humildes pastores, ricos reis magos,
ovelhas, bois e jumentinhos. E todos ressaltaram a utopia da comunhão possível,
da fraternidade universal. A partir de um pobre estábulo, ficou sacramentada a
nobreza de ser gente e irmão.
Lembra-te, ó Homem, deste novo recomeço, desta nova
criação, desta santa utopia. Despe-te, por isso, de todo orgulho e reveste-te
com a humildade divina que Deus consagrou, ao encarnar-se. Limpa teu olhar de
qualquer arrogância e dá tua mão aos que têm, como tu, saudades do paraíso
perdido. Sem teus irmãos, não chegarás a lugar nenhum, ou melhor, perderás para
sempre esta segunda chance. Escreve em teu coração as palavras de Jesus: “O que
fizerdes ao menor de meus irmãos é a mim que o fazeis”. E fazendo-te irmão dos
pobres, doentes e pecadores, receberás o mais auspicioso de todos os convites:
“Vem, bendito de meu pai! Para ti Deus refez o paraíso que nossos pais, um dia,
perderam”! Fazendo-te irmão, estás convidado a entrar na estrebaria, para
festejar o natal de Jesus.
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