Levantando a voz 19
Frei Neylor J. Tonin
Somos todos mendigos
QUERIDOS AMIGOS: Não nos esqueçamos de que, apesar de
nossas possíveis muitas riquezas, somos todos mendigo, uns pobres mendigos.
Podemos ter muitos bens, mais do que necessitamos, mas falta-nos muito,
infinitamente mais.
Ninguém de nós, por exemplo, é dono da água com que nos
lavamos o rosto, ao acordar, de manhã cedinho. Ninguém de nós é dono do ar que
respiramos. Ninguém é dono do firmamento, que nos cobre, sem nada te cobrar,
com os raios de seu sol e nos alegra com o espetáculo de suas chuvas. Ninguém é
dono do trigo que comemos, em forma de pão, em nosso café da manhã. Ninguém é
dono da rua em que moramos nem das pessoas que convivem conosco. Ninguém é dono
da educação e do companheirismo dos que nos cumprimentam, quando chegamos ao
trabalho. E por aí vai. Na verdade, poderíamos nos perguntar: De que somos,
realmente, donos? Nas mais das vezes, teremos que responder: Não somos donos
nem do nosso nariz... Por que, por isso, orgulhar-nos tanto, mostrando-nos
superiores aos que parecem ter menos do que nós? Podem, na verdade, ter menos
bens materiais do que nós, menos estudos, menos posição social. Mas, quantas
vezes, estas mesmas pessoas são infinitamente mais ricas do que nós em virtude,
em bons modos, em simpatia! São mais lindas do que nós, são mais religiosas e
merecedoras de mais aplausos do que nós!
Você pode ter muito dinheiro, fama e poder, você pode
desfilar todo engravatado e com passo firme de dominador, você pode sentar-se
na ponta da mesa e participar de decisões que mexerão com a vida dos outros,
mas, lembre-se!, você não passa, você não deixa de um pobre mendigo. Você
depende basicamente dos outros em tudo: para trabalhar, para se vestir, para se
sentir seguro, para amar e ser amado. Para que se sinta bem, quantas vezes você
necessita de um mísero comprimido. Acima de tudo, você não sentiria, sem os
outros, pequenas e indispensáveis alegrias de viver.
E se falássemos de coisas espirituais! A sua pobreza, no
campo da espiritualidade, QUERIDO AMIGO, QUERIDA AMIGA, talvez seja avassaladora.
Perdão se lhe digo que você, às vezes, passa a impressão de ser um pavão de
penas multicoloridas, desfilando sua sem senhoria aos olhos admirados dos
invejosos, enquanto você se esquece de olhar para seus horrorosos pés de barro.
Quando você se encontra sozinho, longe dos olhares
aparvalhados dos que o invejam, porque não eles vêem o seu interior, sendo,
quem sabe?, eles, pobres como você, sobra-lhe apenas o espelho para denunciar
suas vaidades. E, aí, onde acaba a encenação, surge sua real pobreza.
Olhe para a história e lembre-se de Roma, da Roma imperial
dos Césares. Ninguém, possivelmente, em toda a história humana, apresentou
maior esplendor e se comportou com maior arrogância. A senha “sou cidadão
romano” era um passaporte cobiçado e garantia de privilégios e de impunidade.
Poder, glória e... despudor! E, no entanto, o orgulho romano não resistiu ao
tempo: sumiu tristemente e para sempre do mapa da história. Onde estão o pão e
o circo patrocinados pelos imperadores e servidos, como calmante, aos seus
cidadãos? Os grandes, os Césares, os pavões arrogantes de Roma, que criaram o “mare
nostrum” e humilharam tantos povos, terminaram como pobres mendigos que a
morte reduziu, inapelavelmente, a um punhado desprezível de pó.
Séculos mais tarde, só para continuar este vôo rasante
sobre a História, a Idade Média, que conheceu a grandeza singela de São
Francisco de Assis e a eloqüência exuberante de Santo Antônio de Lisboa e de
Pádua, foi, ao mesmo tempo, uma idade de esplendor e de profundas misérias. Os
papas se autoproclamavam senhores das “duas espadas”, da divina e da temporal,
mandando e desmandando no destino das pessoas e dos povos. Ao lado deles,
imperadores de grandes ou insignificantes reinos eram os senhores da guerra,
que matavam o seu tempo matando e infelicitando seus súditos, na desesperada
tentativa de garantir um poder que era desumano e falaz. Nenhum deles, papas ou
imperadores, escreveu, com todo o esplendor de suas conquistas, seu nome na
admiração da história humana.
Quando no ano 2000, a revista Times perguntou ao
mundo quem tinha sido “o homem do milênio” ou a estrela de maior brilho da
nossa história, nos últimos 1000 anos, não foi eleito ou indicado um General
conquistador, um cientista renomado, um poeta ou um escritor de um grande e imortal
obra, um Papa ou um Imperador, mas as pessoas apontaram e elegeram, encantadas,
o “poverello”, o pobrezinho, a humilde criatura de Deus, aquele que se
intitulava “menor e pecador”, São Francisco de Assis.
Pensemos um pouco sobre isso. Por que São Francisco de
Assis foi apontado como mais o mais alto pico da paisagem humana em mil anos de
história? O que ele fez de tão maravilhoso durante uma vida curta de apenas 45
anos? Ele beijou um leproso que lhe causava repugnância, ele abandonou as
riquezas da casa de seu pai e se casou com a “senhora e dona Pobreza”, ele amou
a Deus humano, pobre e sofredor, na pessoa de Jesus, e ele se fez irmãos de
todas as criaturas, desde o lobo de Gubbio até à irmã cotovia, do Sol e da Lua,
da água e do fogo. Mendigo, pobre mendigo, como todos nós, São Francisco deixou
encantar com a riqueza dos outros, de Deus e dos homens, das criaturas vivas e
dos riachos cantantes e dos pessegueiros em flor. Foi, por isso, que um país,
Os Estados Unidos, de maioria protestante, o escolheu para ser o “homem do
milênio”, reconhecendo nele o grande ideal que é possível ser grande e
inesquecível se nos tornamos irmãos uns dos outros e reconhecemos a Deus como
nosso Pai e Senhor.
Como você pode ver, não basta, QUERIDO AMIGO, QUERIDA
AMIGA, ter poder e exércitos, tronos e castelos, e ostentar uma coroa de ouro.
A empregada de sua casa sabe que tudo isto não passa de falsos brilhos
enganadores e perigosos de uma situação sem futuro, que não consegue esconder a
raiz de nossa pobreza humana. Reis e imperadores, papas e soberanos são,
finalmente, tão mendigos como os pobres de nossas ruas e praças. Não
desconhecemos que é possível ser arrogante na pobreza das ruas como rico em
humanidade dentro de um palácio.
A verdadeira grandeza humana tem como fundamento a
consciência de nossa pobreza e floresce em nossas muitas dependências. Somos
todos, ricos ou pobres, reis ou súditos, radicalmente mendigos. Ter consciência
desta verdade é o começo da verdadeira sabedoria. Tornamo-nos mestres da arte
de viver, quando nos reconhecemos menores e pobres, dependentes e mendigos. Aí,
então, a força da espiritualidade fará de nós a sua casa e nos coroará com uma
auréola que é mais brilhante do que o ouro e mais transcendente do que qualquer
trono. Não se esqueça disso e sempre que se lembrar desta verdade, que soem
para você os nossos mais encantados aplausos. |