Frei Neylor Jose Tonin -  Psicologia e Espiritualidade
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Levantando a voz 29

Frei Neylor J. Tonin

Não absolutizar o relativo

Porque o ser humano tem vocação divina, não raro sucumbe à tentação de fazer-se o que não é: deus. Com corpo e alma, vive de emoções e sentimentos, de pulsões de bicho e pulsações de gente, com carências e dependências afetivas, sonhos de felicidade e definições espirituais.

Embora vivendo de forma absoluta seus amores e caminhos, tem que saber que eles são relativos. Todos, sem exceção. Ele se endereça para um horizonte absoluto por caminhos em que tudo é relativo. Por isto, é importante não adulterar a natureza relativa das coisas, ao conferir-lhes um caráter que não têm, ou seja, absoluto. Todas as coisas e fatos são tão relativos como o dia de hoje, que será absorvido pelo dia de amanhã. Eles passam, graças a Deus, deixando ou não, mais ou menos profundamente, saudades e marcas.

Uma bela aventura de paraíso, por exemplo, pode esfumar-se, deixando um travo amargo na boca e dolorosa frustração na alma. Isto acontece principalmente no mundo das relações afetivas. Quando termina uma intensa experiência relacional, a pessoa tem a impressão de que seu mundo está desabando, acabando, o que não é verdade.

Nessas horas, é de grande sabedoria lembrar-se de que um homem é apenas um homem e uma mulher é apenas uma mulher. Eles não são “a” vida nem “a nossa” vida, mesmo que os tenhamos amado e nos deixado cativar por suas vidas.

Somos mais, muito mais do que aquilo que amamos e do que aquilo que se nos escapa. Se isso não fosse verdadeiro, só nos restaria, ao presenciar o término de um sonho, morrer, o que não é, admitamos, uma boa idéia nem solução para nossas frustrações.

Numa lembrança bíblica, a tentação dos mais diversos diabos da vida consiste em convencer-nos de que, por “comer da árvore do Bem e do Mal”, tornar-nos-emos como Deus e teremos um conhecimento e domínio absolutos de pessoas e coisas. Mais uma vez, graças a Deus, isto não é verdade, nem desejável! Não só podemos como, aliás, até devemos renunciar a esta pretensão, por mais atraentes que possam parecer os frutos que experimentamos. Quem cai na tentação de absolutizar o relativo, acaba por perder a beleza do relativo e, finalmente, o endereço do paraíso final.

Nenhuma criatura tem capacidade para nos transmitir o conhecimento absoluto do Bem e do Mal e nenhuma nos transformará em Deus, por mais que nos ame. O que ela poderá nos fazer é experimentar o paraíso. A isto chamamos de felicidade, mas a felicidade, se tem asas de sonho, tem também pés de barro e só encontrará o jardim das delícias quem tem a coragem dos caminhos do bem e da sabedoria.

Não absolutizar o que é relativo! Quando se absolutiza o que é relativo, tenha ele o nome de mulher maravilhosa ou de príncipe encantado, certamente se relativiza o que é absoluto, tenha o nome de Deus ou de supremo dom da vida.

Palavra dos Mestres

“Nossa fé no único Absoluto nos obriga a relativizar tudo, inclusive nossas instituições eclesiais”. (José Maria González Ruiz, 1916-, biblista espanhol)

“Acredite nos que buscam a verdade. Duvide dos que a encontraram”. (André Gide, 1869-1951, escritor francês)

O homem sábio busca a sabedoria; o louco pensa que a encontrou”. (Provérbio árabe)

“A serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus tinha feito. Ela disse à mulher: ‘No dia em que comerdes da árvore que está no meio do jardim, vossos olhos se abrirão e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal” (Gn 3,1.5).

 

 

 
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